Apoie uma Sociedade Livre¶
Há muito mais para o software ser confiável (sendo “Open-Source”): o que realmente conta são as liberdades que você obtém por meio dele. Você pode aprender com isso? Você pode modificá-lo? Você pode distribuí-lo? Isso é o que chamamos de “software livre”.
Não é um conceito maluco¶
Parece peculiar a muitos usuários que o software deve ser livre com em liberdade, já que nenhum dos produtos da Microsoft ou da Apple são. No entanto, nossa sociedade funciona com muitas coisas livres, por exemplo:
- Nenhum chefe jamais o proíbe de modificar a sua receita e fazer derivados a partir dele. A indústria de alimentos cresce, apesar de ser obrigado por lei a enumerar os ingredientes nos rótulos dos produtos.
- Um sistema de lei judicial justo permite que qualquer pessoa possa ler todas as audiências de julgamento e argumentos. Não só o resultado (as deliberações finais), mas também o processo é totalmente aberto.
O software livre é livre no sentido de “liberdade de expressão”, no sentido de “livre mercado”: tudo isso é necessário para uma sociedade livre. Ainda não está convencido? Vejamos como funcionam os sistemas operacionais privativos modernos.
Software privativo dando errado¶
Os problemas com software privativo evoluíram. Não se trata mais apenas de código-fonte secreto; trata-se de uma mudança fundamental em quem controla seu computador. Isso ocorre em três áreas principais:
1. A ilusão de propriedade¶
No passado, o hardware (seu PC) e o software (seu SO) eram separados. Hoje, eles estão fundidos para impor as regras do fabricante. Esta é a realização moderna de computação confiável da “Trusted Computing”1.
Essa mudança começou com tecnologias como a Inicialização Segura (Secure Boot), que garante que o computador carregue apenas um sistema operacional aprovado pela Microsoft. Embora tenha sido alcançado um consenso que permitiu aos usuários desativá-la ou instalar outras chaves, isso criou um precedente perigoso.
- Nos dispositivos da Apple, os chips da série M e seu Secure Enclave criam um sistema em que a Apple tem a palavra final sobre qual software pode ser executado. Isso dificulta reparos não autorizados e dá à Apple controle absoluto, garantido por hardware.
- Em máquinas Windows, tecnologias como o chip TPM e o processador Pluton da Microsoft criam uma “raiz de confiança” que é leal à Microsoft, não a você.
É como comprar uma casa, mas o construtor fica com a única chave mestra e pode trocar as fechaduras quando quiser.
Agora, o hardware dita o que o software tem permissão para fazer.
O ponto crucial é que você não consegue decidir o que é confiável. Seu computador pode se recusar a executar um sistema operacional alternativo, bloquear softwares de desenvolvedores não autorizados ou impedir que uma assistência técnica substitua um componente. O controle não está mais em suas mãos.
2. O jardim murado¶
O software costumava ser um campo aberto. Você podia adquirir e executar programas de qualquer lugar. Agora, os fornecedores estão construindo muros ao seu redor, criando “Lojas de Aplicativos” (App Stores) selecionadas que os beneficiam.
- A Mac App Store e a Microsoft Store atuam como intermediárias. Elas decidem quais softwares são permitidos, aplicam suas próprias regras e ficam com uma comissão de 15 a 30% dos desenvolvedores.
- No macOS, softwares de fora da App Store precisam ser “notarizados” pela Apple. Essa é uma medida de segurança, mas também funciona como um mecanismo de desativação: a Apple pode revogar remotamente o certificado de um desenvolvedor, desativando seu software em todos os Macs do mundo.
O fornecedor torna-se o guardião de todo o software.
Imagine um mundo onde as livrarias são substituídas por uma única loja, pertencente ao fabricante. Essa loja decide quais livros serão publicados, pode retirar livros da sua prateleira depois que você os comprar e fica com uma grande porcentagem de cada autor. Essa é a realidade dos ecossistemas de aplicativos modernos.
Support mobile freedom
While we fight for freedom on the desktop, the mobile world is facing an immediate crisis. By September 2026, Google plans to lock down Android, requiring all apps to be registered by verified developers.
This turns your phone into a “walled garden” where you no longer have the right to run software of your choice. Support the Keep Android Open initiative to ensure Android remains a genuinely open platform.
3. Você é o produto, não o cliente¶
Você não compra mais um produto acabado. Você assina um serviço que está em constante mudança para atender aos interesses do fornecedor, não aos seus.
- Telemetria agressiva: O Windows 10 e o 11 coletam uma grande quantidade de dados sobre seu uso e configuração do sistema. Grande parte dessa coleta de dados não pode ser desativada. Seu computador está constantemente enviando relatórios para a Microsoft.
- Atualizações e anúncios forçados: O controle sobre as atualizações do sistema foi removido. O Windows agora pode reiniciar seu computador e instalar alterações indesejadas. Pior ainda, essas atualizações agora são usadas para inserir anúncios e softwares indesejados diretamente no Menu Iniciar, na tela de bloqueio e no Explorador de Arquivos.
Seu dispositivo funciona para o fornecedor, não para você.
Isso transforma o usuário, de um cliente que possui um produto, em uma fonte de dados e um alvo para publicidade. Seu sistema operacional deixa de ser uma ferramenta neutra e passa a ser um participante ativo em um modelo de negócios no qual você é o produto que está sendo vendido.
O maior impacto¶
Código é poder. Hoje a maioria dos documentos de trabalho são escritos e codificados com algoritmos secretos em software privativo. O que será dos livros de amanhã, fotos, filmes, ensaios, animações, músicas, notícias? Programas privativos como o Windows não tem transparência. Uma cultura livre e uma sociedade livre não pode crescer com tal software.
Usamos computadores para nos comunicar, criar e aprender. Quando essa base é controlada por um punhado de corporações cujos modelos de negócios dependem de restringir você, isso corrói sua liberdade e autonomia.
A mudança é de propriedade para locação. Você é um convidado usando seu próprio dispositivo, sujeito às regras do proprietário.

Randall Munroe, xkcd: Content Protection
O software é usado para impor regras. Regras que podem ou não ser lei. Regras que podem ou não ser justas. Se o software não for livre, não haverá espaço para o usuário influenciar essas regras. Uma cultura livre e uma sociedade livre não podem ser construídas sobre uma base digital de locação (tenancy).
Podemos sugerir que mude para o GNU/Linux?
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Conhecimento Livre requer Software Livre
Um artigo interessante por Jimmy Wales, que é o cofundador da enciclopédia livre Wikipédia.
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O artigo viral de Cory Doctorow sobre como as plataformas morrem. Embora não trate apenas de sistemas operacionais, ele explica perfeitamente o ciclo de vida das plataformas que aprisionam seus usuários.
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Por que os softwares não devia ter proprietários
Um texto fundamental para o movimento do Software Livre, escrito por Richard Stallman. Ele esclarece objeções comuns e explica algumas ideias importantes.
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A Trusted Computing é uma tecnologia que usa hardware para impor restrições. Seus defensores afirmam que ela melhora a segurança, mas os críticos frequentemente a chamam de “Computação Traiçoeira” porque pode tirar o controle final do proprietário do dispositivo. ↩